ELISA OHTAKE

Tira Meu Fôlego

Tira Meu Fôlego é uma peça performática na qual a diretora Elisa Ohtake provoca cinco bailarinos contemporâneos, cada qual com um trabalho muito autoral em São Paulo, para estudar a vitalidade radicalmente. Para isso acontecer, a diretora criou uma estratégia limite, absurda, exaustiva, cara de pau: cada bailarino precisa provar, dançando, que está apaixonado. Além de dançar eles se vêem obrigados a se expor verbalmente para dar conta da proposta da peça e muitas vezes a agir de maneira estranha pra eles mesmos. É uma luta entre a ironia e o fazer para valer, entre o ‘blasesismo’ nosso de cada dia e a vontade total. Os bailarinos experimentam a desmedida neles mesmos, saem e entram do tom. É um desafio geral. Abaixo o texto do programa da peça com o aprofundamento das questões propostas.

“Em Tira Meu Fôlego tentamos estudar a vitalidade radicalmente, na vizinhança com a dor, o risco, a libido, a festa. Colocamo-nos em uma situação da mais drástica vitalidade, talvez a mais drástica de todas, e da qual dificilmente se pode sair: a paixão. Mas como discutir a paixão radicalmente se o capitalismo justamente captura pelo culto das emoções totais, pela exploração intensa das sensações sensacionais, pelo tremor, pelo frescor? Como estudar no corpo a paixão se a produção mercadológica incessante de excitação/emoção se torna cada vez mais condição de estar no mundo, padrão de comportamento, medida de ação e percepção? Como estudar a vitalidade radicalmente, na vizinhança com a dor, o risco, a libido, a festa? Nós vamos forçar a barra e ver o que acontece. Nem que tenhamos que misturar tudo. Nem que tenhamos que oscilar, desesperados, entre a paixão, no sentido vital da palavra, e a mera espetacularização das emoções.

Em um nível de descrição metalinguístico da mesma performance, vamos matar uma curiosidade sádica: o que acontece quando um bailarino contemporâneo, para quem a porta de entrada para a dança não costuma ser a emoção, para quem o potente e bem vindo entendimento de dança como pensamento do corpo é fundamental, o que acontece quando esse bailarino contemporâneo se depara com questões típicas da dança moderna e se vê obrigado a “dançar apaixonadamente”? O que acontece quando, de repente, ele é obrigado a expressar suas emoções mais íntimas à máxima potência e com a maior dignidade possível? Como esses entendimentos de dança completamente distintos se organizam no seu corpo? Quais dramaturgias do corpo são possíveis?

E para nos referirmos neurofisilogicamente à mesma performance, podemos dizer que hoje vamos assumir o desafio de discutir no corpo a relação, no sentido mais químico possível, entre dança, emoção e sentimento, ou seja, entre dança e as alterações do estado do corpo e do estado das estruturas cerebrais que mapeiam o corpo e sustentam o pensamento.”

Elisa Ohtake

Créditos
Concepção, direção, criação, dramaturgia geral: Elisa Ohtake
Performance e criação: Cristian Duarte, Eduardo Fukushima, Raul Rachou, Rodrigo Andreolli, Sheila Ribeiro, Elisa Ohtake Cenário, iluminação e sonoplastia: Elisa Ohtake Operação de luz e som: Jeff Campos Cenotecnia: Cesar Rezende Produção: Stella Marini Púrpura Produções Artísticas Fotos: João Caldas

Olhares Críticos

“Pra lá de inteligente, grupo coeso, harmônico, texto delicioso e conceito extraordinário, anti tudo, anti virtuoso, anti expressivo, ótimo humor, brilhante.”
Agnaldo Farias, curador da 23a Bienal de S.Paulo

Tira Meu Fôlego faz o que anuncia: difícil não ficar naquele estado de espanto que estanca a respiração a cada vez que uma cena mais instigante que a outra vai sendo apresentada. Elisa Ohtake e seus cinco maravilhosos colaboradores fazem cintilar uma seqüência de proposições surpreendentes, divertidas, provocadoras. Se fosse necessário identificar, a tag seria “deslocamento”. Porque esta é uma legitima produção dos tempos de agora. Tem um pouco de teatro, do mundo pop, artes visuais, one man show, stand up comedy, tudo cozido num caldo de referências consagradas e, é claro, também de dança. Aqueles assuntos caros às artes do espetáculo estão todos lá, afilados e sorrindo de/para nós: autoria, colaboração, representação, narratividade, presença, multidão, expressividade, o que separa o moderno do contemporâneo, biografia, relação entre aquecimento e performance, etc.”
Helena Katz -“O Estado de S. Paulo

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