ELISA OHTAKE

Diretora de teatro e dança, Elisa Ohtake é comprometida em pensar a cena contemporânea às últimas consequências, sempre no cruzamento com a performance e as artes plásticas. Em 2014, ganhou o prêmio APCA de melhor espetáculo de dança.

Sua companhia se chama Cia Vazia. A Cia Vazia tem uma única integrante fixa, Elisa Ohtake, e olhe lá. Para preencher ou fomentar esse vazio assustador, a cada trabalho são convidados diferentes artistas, integrantes transitórios, idiossincrasias decisivas para os rumos da pesquisa. Sob forte contágio da performance, dança e teatro, a Cia Vazia tenta fazer perguntas a respeito da arte, do mundo e de si própria – a ironia, aqui, também é auto-ironia, daí o nome da Companhia. Cada trabalho é uma nova tentativa de dialogar com os vazios contemporâneos – estéreis ou profundamente abertos.

Entre seus trabalhos destacam-se Let’s Just Kiss And Say Goodbye (2014), Tira Meu Fôlego (prêmio APCA melhor espetáculo de dança 2014), Falso Espetáculo (2007), Apathia (2004). Graduou-se em dança e performance pela PUC-SP e teatro pelo Teatro-Escola Célia Helena. Estudou também na Trisha Brown Dance Company, no Japão com Yoshito Ohno, Akira Kasai e Yukio Waguri; no Brasil, treinou anos de dança contemporânea, dança flamenca e dança africana. É professora de expressão corporal e interpretação para atores no Teatro-Escola Célia Helena.



Entrevista dada à revista francesa La Règle du Jeu

Você é uma artista múltipla : diretora, roteirista, coreógrafa, cenógrafa, e também atriz e dançarina. Como é que se consegue assumir tantos papéis?

Não consigo separar muito as coisas, já tentei algumas vezes e não consegui, quando escrevo uma peça logo vem junto um pensamento de corpo, um pensamento estético que desemboca no cenário, figurinos e o jeito necessário de dirigir também. Se a ideia de um cenário me ocorre primeiro, a própria atmosfera dele já me aponta uma dramaturgia, uma pensamento de corpo, etc. Com relação a atuar e dançar é diferente, atuo e danço pouco em cada peça, faço só para ter a sensação de estar dentro da obra, só para ter o gosto de estar junto com os atores ou bailarinos, de me sujar com eles, nem que seja só um pouquinho.

Com que tipo de artista você gosta de colaborar?

Gosto de trabalhar com artistas que não têm medo de se expor completamente, de estar em situações novas para ele, gosto de artistas que gostam de flertar com os extremos, com intensidades extremas, mas também com a ironia, com o ridículo, com a impostura em cena. Gosto de trabalhar com artistas que tenham um entendimento explodido de arte, que gostem do trânsito entre as artes.

Você pode nos falar sobre seus dois espetáculos atuais: Tira Meu Fôlego e Let’s Just Kiss And Say Goodbye? Como foram elaborados? O que dizem?

Ambos tentam trazer à tona a vitalidade radicalmente, na vizinhança com a dor, a morte, o risco, a festa. Para isso acontecer, em Tira Meu Fôlego propus uma situação completamente absurda para bailarinos de dança contemporânea: provar que estão apaixonados, dançando, um por vez. Absurda porque a emoção não constuma ser a porta de entrada dos trabalhos de dança contemporânea. A estrutura da peça é ironica e provocativa mas na hora de provar a paixão é pra valer, os bailarinos se colocam numa situação de vida ou morte, tudo ou nada, é bonito de se ver. Em Let’s Just Kiss And Say Goodbye, proponho aos atores que atuem como se essa fosse a última peça de cada um deles, uma despedida fake e fatal do teatro, um dispositivo estratégico levado às últimas consequencias para a vitalidade explodir. A história do teatro é evocada e a pesar de todos serem atores de peso em São Paulo e talentosíssimos, a ideia não é que as cenas fiquem boas mas que os atores se despeçam e façam tudo o que eles sempre quiseram fazer no palco e nunca fizeram, custe o que custar. Ambas as peças são provocativas porém afirmativas da vitalidade, provocam para afirmar radicalmente a vitalidade. E a plasticidade estética é estrutural em ambas.

Os dois últimos títulos de seus espetáculos tem um léxico ligado ao «extremo», ao contrário de suas criações anteriores (Falso espetáculo, em 2008, Dança com um bando de japonesinhos, em 2008, e Apathia, em 2006). Seria este o começo de um novo ciclo?

Acho que sim. Depois de Falso Espetáculo eu vivi uma experiência pessoal muito triste, vi de perto uma pessoa que amava muito enlouquecer e mudar de personalidade pra sempre, a dita esquizofrenia. Fiquei anos em estado de choque, triste e sem conseguir criar nada. Me traumatizei por querer voltar a criar e não conseguir e por querer viver plenamente o mínimo que fosse e não conseguir. Aparentemente eu estava bem, mas no fundo era pesadelo, não havia mais a vitalidade no sentido sutil e potente da palavra. Mas eu dou aulas e isso me salvou pouco a pouco, os alunos me salvaram. Agora estou muito bem. Talvez seja por isso que as peças dessa nova fase tenham uma pegada extrema e tentem discutir a vitalidade radicalmente, cada uma a seu modo.

Você cria, alternadamente , peças de teatro e espetáculos de dança. Como se faz a escolha de montar uma peça e não uma coreografia e inversamente ? As duas linguagens se misturam nas suas criações?

Sempre se misturam, às vezes mais, outras menos. Às vezes a dança predomina, às vezes o teatro, mas sempre se misturam. Dependendo da discussão do trabalho a dança dá mais conta que o teatro e vice versa. A performance também está sempre muito presente, ela é que dá o tom dos meus trabalhos.

Quais são as dificuldades em montar o tipo de trabalho que você desenvolve?

Tudo é difícil para o teatro e a dança não comercial no Brasil, é uma luta, mas se há um lugar da liberdade artística no sentido forte do termo, da potência criativa, do artista não subordinado “contra a intolerância de um mundo indiferente” como diz Tadeuz Kantor”, se há um lugar onde a vida no sentido forte pode acontecer é esse: o teatro vivo, inquieto, problematizador de si mesmo, apoteótico de si mesmo, festa de si mesmo e do mundo, e isso compensa tudo.

As suas criações podem ter uma leitura política?

Gilles Lipovetsky (sociólogo e filósofo) nos diz, sabiamente, que o capitalismo captura pelo culto à excitação incessante, pelo vício aos estímulos que vêm de todos os lados. Os meus dois últimos trabalhos evocam essa questão em forma de pergunta: como discutir a vitalidade radicalmente se o capitalismo justamente captura pelo culto das emoções totais, pela exploração intensa das sensações sensacionais, pelo tremor, pelo frescor? Como? É um desafio político.

Um ponto comum entre todas as suas criações parece ser o jogo com a realidade e a ficção inerente a todo espetáculo. Você pode nos falar mais sobre isso?

Gosto desse dispositivo tão simples porém infinito de misturar realidade e ficção. Nos meus trabalhos gosto também de dizer que a ficção é realidade e a realidade, ficção. Dependendo de como é usado pode ser um dispositivo poderoso porque essa é a condição humana, sempre entre o sonho e a realidade.